Vida de Gordinha

A sociedade é engraçada. Todos lhe condenam por estar acima do peso, mas na hora que você tenta se regular tudo parece trabalhar contra. Quando por exemplo você decide dar um tempo com a bebida, deixar de tomar aquela cervejinha a qual você é o que sempre puxa, ou pelo menos escolher um dia para tomá-la, você vira uma aberração. “Como assim parou de beber? Toma só essa não vai engordar não, o que engorda mesmo é comer…” Como assim cara pálida, onde foi que você leu que cerveja não engorda? Todos viram nutricionistas de botequim.

Aí você volta de uma corrida sofrida, afinal levou alguns kilos para passear na esteira, chega em casa morta. Ainda não bateu a vontade de comer, mas você já está no banho pensando no que poderia ingerir. Faz um pacto consigo mesmo que comerá algo light, bem saudável para fazer jus ao exercício. Ao adentrar no melhor cômodo da casa, a cozinha, você abre a geladeira e se depara com um bolo de batata maravilhoso que toda a sua família comeu ou vai comer. A mão se estica, mas antes de pegar a travessa de calorias em forma de comida deliciosa, você avista uma lata de atum que salva. Ufa, primeira barreira superada. Pega um requeijão light para fazer uma pastinha. Ao abrir a lata de atum, você puxa o abridorzinho que vem nela, como nas latinhas de refrigerante e cerveja, ou seja, está mais do que habituado com ela. E na hora em que puxa o abridorzinho ele quebra e a lata continua fechada. Você já está uma fúria com o fato de ter uma comida perfeita na geladeira, e você ali naquela miserinha de atum. Mas tudo bem, “pensa no coração”, você se consola, e começa a procurar o abridor de latas. Abre todas as gavetas e não acha. A empregada é nova e mudou tudo de lugar, “deve ter enfiado na”, enfim, tadinha, primeiro mês. Eis que adentra na cozinha sua família. Todos  se sentam a mesa e o primeiro infeliz vem e tira a travessa proibida da geladeira. Você continua tentando se concentrar no ato de achar o raio do abridor e fingir que ninguém tirou nada de geladeira nenhuma. Um infeliz oferece ajuda, mas você nega veentemente pois não quer ajuda de nenhum magrinho imbecil. Antes que você desvire a cabeça, seus olhos flagram uma cena arrasadora: sua mãe magrela espremendo limão em cima de um bolo de batata quentinho recheado de salsicha. Você vira a cabeça rápido, meio tonta, desnorteada mesmo. “O que eu estava procurando?”. Então desiste de procurar o abridor. “Ah não, vou ser forte!”. Pega uma faca e enfia na tampa, a família olha com pena e oferece o bolo de batata. Sua cabeça se move lentamente em direção àquela família perfeitamente ridícula,  e apenas com um olhar fuzilante seu eles entendem e desistem. Depois de muito esforço finalmente a latinha é aberta. Pega o prato, mistura o atum com requeijão. “Ah, um azeitinho…, vai, pra dar um gostinho”. Só um fio como manda a boa alimentação. “Isso faz bem para a saúde, bem para as veias, isso pode”, você se desculpa orgulhosa. Amassa todos os igredientes. Pronto, pode até voltar a sorrir. Se dirige à mesa de tortura e senta. Ao sentar avista a cesta de pães no meio da orgia alimentar alheia (queijo ralado, coca, …). “Ué, cadê o pão light integral com aveias e sementes que eu comprei?”. Olha para os seus companheiros consanguíneos. Eles se entreolham. E sua querida irmã magrela-que-se-acha-sempre-muito-gorda diz com ar de pena “ih, comi hoje a tarde o último”. Seu olho se enche de água, seu corpo murcha lentamente, você encara com fúria cada ser comilão daquele estabelecimento. É aí que você abaixa o olhar molhado e se depara com o maldito bolo de batata já na metade. Pega o prato, empurra o atum com requeijão e uma pitada de azeite para a borda, e sem dizer uma palavra coloca em generosas porções todos os carboidratos do bolo de batata no seu prato. E, lógico, mistura com o tal do atum. Todos se calam em sinal de respeito. Apenas o som do seu maxilar trabalhando.

Paula Jubé

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